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[RESENHA] Persépolis

Livro: Persépolis

Autora: Marjane Satrapi 

Editora: Companhia das Letras







Quando fui decidir o que postar hoje me dei conta que eu ainda não tinha feito resenha de "Persépolis". Aí veio a duvida. POR QUE EU NÃO FIZ ISSO ANTES?

Enfim...surto passado, vamos ao que interessa. 

Ganhei esse livro de natal da minha irmã. E, verdade seja dita, foi a minha primeira HQ, mas foi amor a primeira vista....ou lida no caso. 

Foi daqueles livros que você lê em um dia só porque não consegue parar. Foi difícil até almoçar e tomar banho nesse dia. Não queria ficar um segundo sem ele. 

Não é novidade que eu AMO histórias do Oriente Médio, ainda mais as reais, ainda mais as autobiografias. Então pronto, "Persépolis" já tinha tudo pra eu me apaixonar. 


Marjane conta como se viu obrigada a usar o véu aos 10 anos de idade e frequentar uma sala só com meninas, após a Revolução Iraniana de 1979, que instaurou uma ditadura islâmica no país.

Seus pais, que sempre foram liberais acharam melhor mandar Marjane estudar na Áustria. E assim a menina se viu sozinha em um país estrangeiro aos 14 anos. 

De volta ao Irã, Marjane se formou em Belas Artes e depois se estabeleceu em Paris. 

Toda a história é contada com muito humor e de maneira bem didática. 

A introdução do livro faz um breve panorama do Império Persa, hoje Irã. 

"Persépolis" também virou filme e concorreu ao Oscar.

Foi a primeira HQ que eu li e não me arrependo. "Persépolis" é amor demais!!!!

Melhor preço: Livraria Cultura R$ 30,90

Filme: Persépolis

[RESENHA] Estado Islâmico - Desvendando o exército do terror

Livro: Estado Islâmico - Desvendando o exército do terror

Autores: Michel Weiss e Hassan Hassan

Editora: Seoman








Ganhei esse livro de aniversário, pode parecer estranho, mas a pessoa que me deu acertou em cheio. Amo ler sobre o Oriente Médio (acho que vocês já perceberam) e entender o conflito que assola a região não é nada fácil. 

Esse livro é um lançamento da Seoman, e como eu tinha que fazer uma resenha crítica pra uma aula da faculdade, ele foi o escolhido. 

Abaixo, vou compartilhar na íntegra a resenha que eu entreguei valendo nota. Espero que vocês gostem =)


O exército do terror

Isabella de Vito

“O exército do terror estará conosco indefinidamente” é com essa previsão que o jornalista Michael Weiss e o analista político sírio Hassan Hassan terminam o livro “Estado Islâmico: Desvendando o exército do terror”.

Com ampla experiência no Oriente Médio, os dois conversaram com membros do Estado Islâmico e pessoas ligadas ao governo de Bashar-al Assad, al-Maliki e Khamenei. E como uma grande reportagem especial, explicam os conflitos que deram abertura para o surgimento de grupos insurgentes e as estratégias usadas pelo EI para recrutar combatentes.

A longa luta sectária entre xiitas e sunitas, que culminou com a invasão do Iraque pelos Estados Unidos na ditadura de Saddam é o foco principal da discussão, assim como a alternância de poder no Oriente Médio entre Irã e Iraque.

Originário como uma célula da al-Qaeda do Iraque, o Estado Islâmico soube usar com inteligência os erros da Guerra do Iraque para se tornarem o grupo terrorista mais perigoso do mundo.

A “onda” de recrutamentos principalmente de estrangeiros é comparada pelos autores ao nazismo de Hitler. Com um grande domínio de redes sociais como facebook, twitter e Zello, o EI recruta jovens de forma hipnótica.

Outro ponto importante para entender a Guerra Civil Síria, que já dura há 4 anos, é o fato de al Assad ter facilitado a entrada de grupos terroristas para o seu território, com o objetivo de “vender” ao Ocidente uma imagem de que apenas ele pode resolver o problema. Com outras palavras, Assad plantou a destruição em seu território para manter sua ditadura.

Os autores mostram também que a política norte-americana falhou no pós-guerra no Iraque e ajudou o terrorismo a se estabelecer entre a fronteira com a Síria.

Apesar de muito bem escrito, o livro aborda um tema muito complexo e que necessita de um conhecimento prévio sobre conflitos no Oriente Médio para poder ser entendido. Não sendo assim o livro ideal para quem quer entender pela primeira vez a Guerra. 

Melhor preço: Amazon R$ 26,60

[RESENHA] Mulheres de Cabul

Livro: Mulheres de Cabul

Autora: Harriet Logan

Editora: Geração Editorial














Ultimamente, tenho parado muito para pensar em tudo que está acontecendo no nosso país, na área política. Essa polarização entre esquerda e direita, certo e errado, bem e mau...Se você se diz de um lado, não pode concordar com nada que seja do outro e vice-versa. 

Não acho a polarização uma coisa positiva, mas isso é o que chamamos de "democracia". E quando paramos para pensar em países de zonas de conflito, como o Oriente Médio, imaginamos que isso não exista. Ou todos são terroristas ou todos sofrem com o terrorismo. 

O Taleban dominou a capital do Afeganistão por 5 anos e apesar de ser um grupo extremista fundamentalista, eles nunca se autodenominaram "terroristas", e sim, partido político. 

Alguns países não reconheceram a legitimidade deles como partido, porém muitos outros reconheceram. 

Longe de mim tentar defender os atos desse grupo, apenas contextualizando, eles surgiram em um período em que Cabul enfrentava uma ausência de poder, após a guerra civil contra os comunistas russos. 

A capital afegã era muito violenta, ah, mas você pode dizer, os Talebans cometeram atos bárbaros. Sim, concordo plenamente. Mas em "Mulheres de Cabul", um livro reportagem fotográfico, conhecemos mulheres que se disseram sentir mais seguras com o os talebans no poder. 

E essa, pra mim, é a maior beleza do livro. Ele quebra com a nossa hegemonia de pensamento, de achar que todos abominavam os extremistas e nos faz refletir a diferença dos seres humanos. 

Através de fotos muito sensíveis, a jornalista Harriet Logan nos introduz nesse universo totalmente diferente ao nosso, e conta a vida durante o taleban e após a queda do poder. 

Ela retrata mulheres de diferentes classes sociais, em 1997, meses após os talebans terem assumido o poder. E volta ao país em 2001, e tenta encontrar as mesmas mulheres e observar como estava a vida das personagens após tantas mudanças.

O trabalho é maravilho e altamente reflexivo. Li em um dia e passei horas observando as fotografias. As expressões, e imaginando a coragem que essas mulheres tiveram, já que para o Taleban era proibido qualquer retratação humana através de fotos, desenhos ou quadros. 

O único problema com esse livro é que ele está esgotado na editora e agora só é possível ser encontrado em sebos. Mas o esforço vale a pena!

[RESENHA] Sob o céu de Cabul

Livro: Sob o céu de Cabul

Autora: Andrea Busfield

Editora: Agir





Fawad é um garoto de 10 anos que nasceu à sombra do Talibã, como sua mãe costuma dizer. Ele e a mãe foram abrigados pela tia, após o Talibã destruir a sua família. A irmã de Fawad, Mina, foi sequestrada e o pai se uniu a Aliança do Norte para lutar contra os fundamentalistas. Após o pai ter sido dado como morto, Bilal, o irmão mais velho de Fawad, também se juntou a Aliança do Norte e nunca mais voltou. 

É assim que somos apresentados a Fawad. E eu, como boa amante do Oriente Médio e principalmente do Afeganistão, me encantei com o livro ainda na estante apenas pelo nome e pela capa linda. 

Quando comecei a ler, não que foi difícil de manter a leitura, mas passei um bom tempo imaginado como um romance no Afeganistão poderia se diferenciar do que o Khaled Hosseini já havia feito. 

E assim fui, aos poucos me encantando pela história. O personagem principal tem 10 anos, então alguns pensamentos são meio abstratos, e ai entendemos a magia do livro, um livro adulto contado por uma criança. 

A vida de Fawad e sua mãe mudam quando eles sao convidados a morar na casa de uma estrangeira, Georgi, que contrata a mãe de Fawad como cozinheira e lavadeira, de Gerogi, James e May, 3 estrangeiros que vivem em Cabul. 

Fawad passa a ter seu proprio quarto e televisão, e passa a viver em um padrão elevado para o país. 

O menino gosta de brincar de detetive e em uma de suas "missões" a mãe o pega bebendo com James. Por conta desse episódio Fawad é obrigado a trabalhar no período depois da escola em uma loja, com um cego. 

Um dia Fawad descobre que Georgi mantem um relacionamento com um dos afegãos mais importantes do país. 

E a história passa a se desenrolar sobre o amor de Georgi e Haji Khan e  amor que Fawad e Georgi sentem um pelo outro.

O livro é leve, e te deixa com um sorriso no rosto após terminar. Sem contar que o exercício mental para imaginar o cenário em que o livro passeia, te faz viajar. 

É a típica leitura de final de noite ou de final de semana chuvoso (só ta faltando a chuva né? =p)

Melhor preço: Livraria Cultura R$ 24,90

Entrevista Klester Cavalcanti e Dias de Inferno na Síria

Livro: Dias de inferno na Síria

Autor: Klester Cavalcanti

Editora: Benvirá


Esse post é uma vitória pessoal e profissional. E to muito feliz de poder compartilhar isso com vocês. Li esse livro no começo do ano, em 4 dias, e amei. Preparei o post dia 29 de janeiro, mas antes de compartilhar, quis fazer algo diferente. 

Entrei em contato com o autor do livro, Klester Cavalcanti, por facebook, e qual a minha surpresa que tive uma resposta super rápida. Minha ideia era bater um papo com ele sobre o livro e a experiência. E consegui um material tão grande que não acho justo deixar nada de fora.

Nossa conversa foi por telefone, a qual eu transcrevi na íntegra para o blog e cortei alguns trechos do áudio(pra quem tiver preguiça de ler tudo). Então esse post, alem da resenha habitual do livro, vocês podem acompanhar o que o autor nos contou sobre ele =)

Aproveitem!!!!!

RESENHA

Já falei aqui várias vezes sobre meu amor por livros reportagens né. Mas esse ta entrando no top one.

Klester é um jornalista brasileiro, que queria mostrar a situação real da Guerra Civil na Síria na cidade em que as tropas de Bashar al-Assad duelavam diretamente contra os revolucionários que queriam derrubar o governo ditatorial do presidente.

Ele conseguiu um visto de trabalho com a Embaixada Síria e planejou a viagem para fazer uma reportagem para a IstoÉ. Ele também tinha liberação para portar câmera fotográfica e filmadora.

Klester conheceu pela internet um casal de irmãos brasileiros residentes em Beirute no Líbano e fez escala lá antes de seguir viajem para Homs. Ele tentou entrar pela Síria pelo norte, indo por Trípoli. Porem na imigração Síria ele foi barrado e teve que voltar para o Líbano. A ministra Das Comunicações Sírias exigiu que Klester fosse por Damasco para obter a liberação para ir para Homs. Ele não queria essa opção com medo de que incumbissem algum soldado do governo para acompanha-lo e o impedisse de fazer a reportagem. Mas como era a única alternativa após ter sido barrado no norte, ele assim o fez.

Em Damasco parecia que a guerra era uma coisa distante a não ser por alguns tanques de guerra perto de prédios do governo. Klester não conseguiu nenhum meio de transporte até Homs a não ser ônibus. A rodoviária da cidade parecia abandonada e muito limpa apesar do deserto. Depois de muito insistir, ele conseguiu um taxista que o levasse ao epicentro da guerra, onde ele se encontraria com seu contato em Homs.

No caminho, ele foi barrado por diversos postos de controle policial do governo e em um deles foi apreendido. Com poucos membros do exercito falando inglês, Klester não sabia porque estava sendo preso. Foi levado para um prédio, e com uma arma apontada nas suas costas, teve certeza de que iria morrer. Passou a noite sob custódia da policia, com seus pertences confiscados. E a partir daí começa o drama.

Ele foi encaminhado para a prisão central de Homs, e ficou seis dias encarcerado. Na prisão ele fez amigos que o ajudaram um pouco a superar a decepção de estar preso sem motivo. O relato é fiel aos dias que ele passou na cadeia e faz a gente quase sentir o cheiro e o gosto de tudo, o desespero de ver as horas passarem sem nada pra fazer e a tristeza por não saber o que vai te acontecer.

Durante todo o tempo em que eu estava lendo, fiquei imaginando que essa guerra ainda destrói a Síria e como eu queria conhecer esse país tão antigo e com tanta história em volta. Muitas vezes nós ficamos pensando e querendo saber sobre as grandes guerras que o nosso mundo viveu como uma coisa tão antiga e ultrapassada, mas guerra é uma realidade ainda na região do Oriente Médio e muitas vezes nem nos damos conta.


ENTREVISTA COM O AUTOR KLESTER CAVALCANTI 


RL –O que de positivo e de negativo o livro te trouxe e qual o papel do jornalista nos relatos de guerra?

Klester – Em relação ao livro, eu acho que assim, seria a experiência né. Obviamente lá quando tava tudo acontecendo, eu fui preso, torturado, ameaçado de morte, colocado numa penitenciaria, numa cela com mais de 20 presos, todos árabes muçulmanos eu era o único estrangeiro na cela e o único não muçulmano, obviamente quanto tudo isso aconteceu, eu só sentia agonia, tristeza, foi muito pesado né.
Quando eu fui preso, quando me colocaram na penitenciaria começou a acontecer muita coisa bacana né, fiz amigos lá dentro, os caras foram legais comigo me davam apoio. Então essa parte positiva que eu sempre falo assim que foi uma experiência humana muito rica, eu acho que a parte positiva conseguiu ser mais forte que a negativa. Toda aquela angustia que eu passei lá, solidão, o desespero...Mas o fato deu ter encontrado amizade, generosidade, respeito, carinho naquelas circunstancias foi muito forte pra mim. Então o saldo é muito mais positivo. Certamente graças as pessoas boas que eu conheci, que eu encontrei fora da prisão e dentro da prisão também, a minha experiência foi muito menos traumática do que poderia ter sido. Eu passei por tudo aquilo e não fiquei com nenhum trauma né



RL – Teria coragem de voltar pra Síria?

Klester – Com certeza, eu quero voltar sim.

RL – Qual foi a sua motivação para fazer essa reportagem na Síria?

Klester – Eu decidi ir porque, como jornalista e como consumidor de informação eu ficava muito incomodado aqui no Brasil de ficar recebendo matérias sobre a guerra da Síria simplesmente matérias numéricas. Porque todas as matérias, sem exceção, que eu lia na imprensa brasileira, eram apenas compradas de agencias, não tinha nenhum jornalista brasileiro lá cobrindo a guerra, nenhum, e eram matérias compradas de agencias só numéricas “Morreram 100 pessoas em Homs”, ai tinha uma declaração do governo da Síria, uma declaração da ONU, ai daqui um ou dois dias mais “morreram mais 70 pessoas não sei aonde”  governo fala, a ONU fala e da na mesma. E eu ficava curioso de saber como ficam as pessoas, curioso de ver. Ai eu comecei a pesquisar e eu vi, por exemplo, que a cidade da Síria onde a guerra era mais intensa, a cidade de Homs, que é onde eu fui preso, era uma cidade muito grande, antes da guerra Homs tinha quase 2 milhões de habitantes, uma cidade do tamanho de Curitiba mais ou menos. Então isso aguçou mais ainda meu interesse de ver como é esse clima de guerra, de violência, de pavor numa cidade desse tamanho.
Tem gente que pensa que Homs é um vilarejo, um povoado no meio do deserto. Não, é uma cidade grande. Muito mais moderna e civilizada do que muitas capitais do Brasil. Com transporte público eficiente, universidades modernas, tudo muito bem estruturado. E ai eu queria ver né, como é que era pras pessoas viverem numa cidade grande como essa no meio da guerra.
Como não tinha ninguém do Brasil la pra mostrar eu falei “Cara, então eu vou né, vou tentar”. Eu sempre digo que o que me motivou a ir para a Síria foi o interesse de mostrar o lado humano da guerra.



RL – Nós aqui no Brasil fazemos uma ideia muito errada do que acontece por lá, né?!

Klester – Com certeza. Até hoje, pra você ter ideia, eu lancei esse livro há dois anos e meio, e ate hoje eu recebo quase todos os dias e-mails ou mensagens no facebook de gente do Brasil todo que leu o livro, dando os parabéns, dizendo que gostou, e muita gente fala uma coisa que eu fico muito orgulhoso quando falam isso, muita gente fala que graças ao meu livro, passou a ter outra visão do povo muçulmano. Porque muita gente acha que muçulmano é tudo terrorista louco né. Ai no livro eles veem um brasileiro cristão que ficou preso com um monte de muçulmano no meio da guerra e foi bem tratado e respeitado, eles passam a ter outra visão.
A gente não aceita a cultura a fé deles e não aceita que eles não aceitem a nossa.

RL – A falta de jornalista brasileiro cobrindo a região é por medo dos jornalistas ou interesse do veículo em não gastar com isso?

Klester – Gastar não é, ir para lá não é caro. Eu fui eu sei quanto custa e a questão não é econômica. A questão não é econômica e a questão não é falta de público porque o Brasil tem uma das maiores comunidades árabe do mundo. Então pra mim eu acho que é só falta de interesse e querer fazer né. Tem muito jornalista que não ta disposto a correr o risco, porque isso é inegável, é arriscado. Quem vai fazer uma reportagem dessa, se você for pros locais onde de fato a guerra acontece você vai correr riscos. Dois meses antes deu chegar em Homs teve um ataque do governo da Síria que matou, entre outras pessoas, uma jornalista americana e um fotografo francês. E essa jornalista que morreu, ela era muito experiente, já tinha feito cobertura de guerra em vários países do mundo e morreu lá em Homs, na mesma cidade onde eu fui preso, ela morreu num ataque do governo. Então assim, se uma americana experiente morreu em Homs, porque que eu não podia morrer também¿ Então eu fui consciente de que isso poderia acontecer comigo. Mas por outro lado assim, eu não sou casado, eu não tenho filho, se eu morrer acabou. Então certamente jornalista que tem filho por exemplo, eu acho que não vão querer se colocar nesse risco né. Talvez se eu tivesse filho eu não fosse, não sei. Eu acho que tem muita coisa que contribui de tomar uma decisão dessa de ir ou não ir né e tem essa coisa falsa que a tecnologia passa que é a ideia de que você consegue fazer jornalismo a distancia. Não consegue cara, jornalismo só existe no local dos fatos. A palavra repórter é muito claro isso, repórter é aquele que reporta, você só reporta um fato se você estiver no local do fato. Eu acho ridículo a gente ter um país com uma imprensa forte, grande e rica como a nossa e que até hoje eu seja o único jornalista do país todo que tenha ido pra cidade da Síria onde a guerra é mais pesada. Eu acho isso deprimente. A rede Globo tem um cara que é tido como correspondente da Globo no Oriente Médio. Esse cara mora em Jerusalém. De Jerusalém pra Damasco da uma hora, uma hora e pouco de voo, esse cara nunca pisou na Síria desde que começou a guerra. A guerra fez quatro anos agora e o correspondente da Globo no Oriente Médio nunca pisou na Síria desde que começou a guerra e o mais feio é que esse cara faz matérias sobre a guerra e ai ele engana a população, porque quem ta passando jornalismo, você vê o credito fulano de tal de Jerusalém, você sabe que o cara ta lá, na cabine dele seguro, mas a tua mãe a minha vizinha, a minha tia, não tem essa leitura. Ela vai dizer, por exemplo, o Willian Bonner chama a matéria “Hoje teve um ataque em Homs. Vamos ouvir nossa correspondente fulana de tal do Oriente Médio” ai começa a aparecer imagens da guerra e no fim da matéria o cara aparece, e como ele mora em Jerusalém ele aparece sempre na frente de um muro de pedra, uma região de arquitetura islâmica, árabe e ai todo mundo que vê  “A o cara ta na guerra”  mas nunca pisou na Síria sabe. Isso é vergonhoso, isso é muito feio sabe. Por exemplo o Fantástico faz matéria especial sobre o Estado Islâmico, comprado de agencia, só que eles não fazem isso deixando claro que é comprado de agência, eles fazem isso com o repórter deles lá narrando e o cara aparece vez ou outra pra enganar o povo de que o cara ta lá. É muito feio isso. E ai além disso a gente tem veículos muito grandes muito ricos no Brasil e até hoje ninguém foi pro lugar da guerra mesmo, tipo a Veja, a Época, a Folha de S.Paulo, Eu sinceramente acho muito vergonhoso isso da imprensa brasileira.

Klester – Tem uma coisa que eu faço e que eu me orgulho muito disso, e sei que até os estrangeiros não fazem tanto. Que é o seguinte, no meu livro todos os nomes, sem exceção, são nomes reais, e isso pra mim é uma questão muito forte de jornalismo de verdade, entendeu. Porque se você usa daquele artificio, que eu sou totalmente contra, de “ah não, vou trocar o nome pra proteger a fonte”. Quando você troca o nome de uma fonte, você pode inventar qualquer coisa que você quiser que ninguém nunca vai poder checar, porque você inventou a história, você não ta colocando o nome real, então você pode inventar o que você quiser. Isso pra mim parece trabalho de faculdade de jornalismo “Garotas de programas de luxo” ai o cara diz la a frase de uma menina, Lucia P. que ganha 50 mil reais por mês, e todas elas são sempre universitárias né, ela é universitária linda, deliciosa, maravilhosa, inteligente, formada em Harvard mas é garota de programa e o nome dela ta preservado. Ah faça o favor né. Pra mim jornalista que usa nome falso pra mim ta nesse nível. E meus livros todos, sem exceção, eu uso nomes reais de todo mundo. E é curioso porque hoje em dia, no facebook, tem um monte de gente que eu falo no livro, que ta no facebook por exemplo. O vice cônsul do Brasil na Síria que foi o cara que no fim do livro, ele foi o cara que me levou no carro da embaixada de Damasco até Beirute, o João Alcântara, esse cara ta no meu facebook. Aqueles dois irmãos brasileiros que me ajudaram em Beiture quando eu cheguei, o Chadi e a Shadia estão no meu facebook. O mais interessante de tudo que eu acho, quando eu sai da prisão me levaram pra Damasco e eu fiquei três dias em Damasco no hotel sendo acompanhando por um funcionário do Ministério da Informação, que foi aquele cara que me levou pra conhecer a Mesquita de Damasco e o mercado publico. E tem um episodio que eu tava com esse cara no mercado publico e eu parei pra comprar um negocio, ele sumiu eu achei que era uma emboscada e fui correndo pro hotel sozinho. Esse cara chama Fadi Marufi ele é funcionário do governo da Síria, portanto na teoria deveria ser meu inimigo, eu fui preso pelo governo dele, fui denunciar o governo dele, e esse cara é meu amigo no facebook. Então se qualquer pessoa quiser checar por exemplo, é verdade que você se perdeu no mercado publico...o cara ta lá, você pode falar com ele. “É verdade que o Klester ficou preso 6 dias¿” Você pode falar o que quiser, mas é um fato, eu fui preso num sábado e fui solto na sexta-feira seguinte. Isso é reconhecido pelo governo do Brasil e da Síria, porque a minha libertação foi negociada entre os dois governos. Mas além do governo do Brasil admitir isso, tem um cara, um ser humano, não é uma instituição, não é um governo, é uma pessoa física que sabe da história e que trabalha no governo da Síria até hoje, e esse cara ta no livro o nome dele, ele ta no meu facebook qualquer pessoa pode falar com ele, pra mim isso é muito importante. Porque tem muito isso né, tem muito cara que faz matéria denunciando coisas e poe nome falso né. Muito fácil quando você denuncia, cara quando você denuncia e usa nome falso você não denunciou ninguém né.

Klester – A minha ideia era ir pra relatar né, como tava a vida das pessoas, só que ao ser 

preso, eu passei a ser um deles. E acabou sendo muito legal minha prisão pro livro essa história porque quando eu fui pra lá eu não tinha ideia de fazer um livro, eu ia fazer só a matéria né. O livro existiu porque eu fui preso e passei a ter uma história única, e ai uma coisa muito legal é que na prisão eu conseguia aquele acesso aos personagens de um jeito que eu nunca teria, solto na rua. Porque na rua, naquele clima de pavor e de guerra, as pessoas não ficariam a vontade pra conversar com um jornalista estrangeiro, com medo do governo. Na prisão não, na prisão ta todo mundo preso mesmo, ninguém tinha pra onde ir. A gente tinha horas e horas pra ficar conversar, os caras confiavam em mim pelo fato deu estar na mesma situação que eles né.


RL – E como foi presenciar essa fé que eles tem, mesmo diante dessa situação?


Klester – Isso foi muito bonito. Porque, eu sou cristão, cristão se a gente é católico ou evangélico a gente reza ou ora quando se bem entende. Você ta triste, ta com um problema, ta mal, aquilo você faz a sua prece e ta tudo bem. Eles não, eles tem o horário certo pra parar pra fazer a oração deles cinco vezes por dia. Isso, pra mim, é um pouco estranho porque isso transforma um ato de fé em uma coisa mecânica, programada, você pode naquele momento não estar disposto a fazer a oração, mas você tem que parar pra fazer a oração. É que nem assim , você não estar com fome e ter que comer porque é meio dia. “Não, eu não quero almoçar agora” mas tem que comer porque é meio dia. Por outro lado eu achei isso também que me parecia estranho uma coisa muito bonita. A disciplina deles e a seriedade com a qual eles encaram a fé. Os caras tavam na prisão, vivendo aquele inferno, todos muito tristes, muito angustiados e paravam cinco vezes por dia pra orar, entendeu? E teve uma hora que eu orei la com eles, foi muito bacana, muito emocionante sabe, de que eles tava deixando eu fazer a oração com eles sabe, mesmo sabendo que eu não era muçulmano.

A Costureira de Khair Khana

Livro: A Costureira de Khair Khana

Autora:  Gayle Tzemach Lemmon

Editora: Seoman




Esses dois anos completos de jornalismo fizeram eu me apaixonar por um gênero especifico de literatura, os livros reportagens. Somada a minha paixão ao Oriente Médio, cheguei a mais um livro sobre a época Taleban.

Gayle é jornalista e estava fazendo o seu MBA com o tema mulheres empreendedoras em países com situação de guerra. E que lugar mais propício para isso que o Afeganistão durante o regime Taleban¿ Porém o difícil seria achar uma mulher empreendedora em um regime em que não era permitido às mulheres nem saírem às ruas. Difícil mas não impossível, e foi assim que Gayle conheceu Kamila, e passou a acompanhar e relatar sua experiência e de sua família.

A professora Kamila, assim como todas as mulheres de Cabul, vê a vida mudar quando o Talibã chega ao poder da cidade. Impedida de lecionar pelo novo regime, Kamila se ve confinada em casa com suas irmãs e ve o sustento da família ficar cada vez mais difícil. A situação piora quando seus pais decidem se refugiar no Paquistão para manter o sustento dos filhos e o irmão mais velho ser mandado para o Irã.

Kamila decide que precisa fazer alguma coisa para sustentar a família, e pede ajuda para a irmã mais velha, exímia costureira, a ensinar-lhe a costurar. Passa tardes na casa da irmã aprendendo a fazer vestidos e bordados e quando volta a sua casa a noite, ensina para as irmãs mais novas o que aprendeu.

A segunda parte do plano de Kamila para ajudar a família é mais complicada. Vender as roupas que costurou no mercado de Cabul. Para essa missão Kamila recruta o irmão mais novo a acompanha-la, mas sabe que é arriscado. Mulheres não tem permissão para falarem nas ruas e Kamilla tem que achar algum vendedor que aceite seus vestidos. E assim, entre a tensão e a alegria de voltar a trabalhar, Kamila encontra a primeira loja que lhe faz encomendas.

As encomendas não param de crescer, a sala da casa aos poucos vai se transformando em um ateliê e as meninas do bairro vão descobrindo a reputação de Kamila e começam a bater a porta da família Sidiqui em busca de uma oportunidade.


Não vou contar como acaba pra não estragar a surpresa, mas é um livro lindo, de fácil leitura e estimulante, ver o que essas mulheres conseguiram em um regime opressor é fantástico e faz a gente ter até um pouquinho de vergonha por as vezes não termos coragem pra coisas tão mais simples. 

Melhor preço: Submarino

O Livreiro de Cabul

Livro: O Livreiro de Cabul

Autora: Åsne Seierstad

Editora: Best Bolso



Quando comecei minha fixação por Cabul, esse foi um livro que eu sabia que tinha que ler. E mesmo demorando 8 anos até finalmente comprar o livro, posso dizer que a espera valeu a pena.

“O Livreiro de Cabul” é um relato fiel da primeira primavera após a queda do Talibã no poder de Cabul. A autora é uma jornalista de guerra norueguesa, que um dia em uma livraria em Cabul conheceu Sultan, e conversando com o dono da livraria, resolveu que queria contar a historia dele, não por ser uma história diferente, mas justamente por ser a história do povo afegão. O pedido de viver com a família Khan foi aceito e o livro são os relatos da convivência dela com a família.

Se pudesse descrever o livro em apenas uma palavra seria: Perfeito. O livro é simples, sem preciosismos e relata a vida desses afegãos. Cada capitulo um membro dessa grande família nos é apresentado. E saber que toda a história é real torna tudo mais emocionante.

Åsne retrata o desejo de Sultan de esposar uma menina de 18 anos como segunda esposa, e como essa ideia foi aceita pela família e principalmente pela primeira esposa, Sharifa. O filho mais velho, que trabalha na livraria do pai e vive atrás de alguma mulher, e quer ter sua própria vida. A irmã mais nova do livreiro, Leila, que sonha em ser professora e não aguenta mais a vida de escreva que leva servindo a família Khan. Bibi Gul a mãe do livreiro. E é impossível terminar de ler o livro sem se sentir intimo de todos eles, e compartilhar um pouco suas frustrações e alegrias.


Sou da opinião que temos que conhecer os diferentes e nos colocarmos no lugar para só assim tentarmos entender, e relatos como esse nos ajudam, mesmo que de uma forma bem reduzida a compreender essa sociedade tão diferente da nossa. Mas além disso, o livro tem um quê de romance que nos faz ler rapidinho para sabermos o final.

Melhor preço: Submarino

Os Iranianos

Título: Os Iranianos

Autor: Samy Adghirni

Editora: Editora Contexto







"A noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, à medida que esta efetiva-se através das dinâmicas das relações sociais. Assim sendo, a diferença é, simultaneamente, a base da vida social e fonte permanente de tensão e conflito” (G. Velho, 1996)

"O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única.” (F. Laplantine, 2000)

Com essas duas frases, início a resenha de Os Iranianos. Pois é impossível sabermos quem somos sem o outro, e precisamos conhecer o outro para nos conhecermos. Os preconceitos tem origem na ignorância e o melhor modo de combatermos esse mal da sociedade atual é com o conhecimento.

Tenho um interesse muito grande pela cultura islâmica, e esse livro me mostrou um novo olhar. Os iranianos não são árabes, são, em sua maioria, persas. Povo que tinha como religião materna o zoroastrismo, que foi suprimido com a invasão árabe em 642.

O livro nos apresenta um povo bem mais ligado ao ocidente que os outros países muçulmanos. Um povo que valoriza o ensino superior "...durante a visita de Lula ao Irã, em 2010, o aiatolá Khamenei ficou perplexo ao saber que receberia oficialmente alguém sem diploma universitário." País de excelentes engenheiros, que enfrenta uma fuga de cérebro por falta de condições.

Ao pensarmos em Oriente Médio, logo pensamos um países precários, mas o Irã é um país de classe média, com 93% de alfabetização e índices de desenvolvimento humano muito parecidos com o do Brasil, alguns até melhor.

Conhecemos um Estado Teocrático, modelo diferente do que temos no Brasil, que é um Estado Laico. Um povo orgulhoso e ufanista, e que por trás dos costumes moralmente aceitos, gostam e fazem festas clandestinas, escondidas da polícia moral. 

Enfim, um povo alegre, que difere de nós em muitos sentidos, mas que quando paramos pra olhar vemos que são pessoas assim como nós, que também se divertem, trabalham, estudam, namoram.

O livro também nos fala da geografia do local, sobre os povos que habitam o Irã alem dos persas, sobre a imagem de nação radical, a crise das tradições sociais, o vício pela internet, os impérios e dinastias e conhecemos a situação das minorias.

                 "Como quase tudo no Irã, a situação das minorias é ambígua e cheia de nuances. Mulheres andam na parte de trás dos ônibus, mas comandam tribunais para aplicar a lei islâmica em questões familiares. Judeus tem dezenas de sinagogas à disposição, mas sunitas são proibidos de construir mesquitas. Ateus oficialmente não existes, já que todo cidadão é obrigado a se declarar membro de uma religião monoteísta. Valem todas as fés monoteístas, menos o baha'ismo, cujos adeptos são perseguidos. Homossexualidade é passível de pena de morte, mas o Estado aprova e financia operações para troca de sexo."


As mulheres no Irã, destoam da maior parte do Oriente Médio, onde são praticamente invisíveis e obrigadas a cobrir o rosto. No Irã, elas tem o rosto a mostra, atuam e trabalham em todas as áreas, votam e são eleitas, dirigem livremente, pilotam aviões, atuam em competições esportivas.Iranianas não se veem como vitimas, e assumem que enfrentam os mesmos problemas que iranianos homens. 

É preciso conhecer para podermos falar, e posso dizer que independente de qualquer coisa me apaixonei pelo Irã através desse livro. Um país cheio de cultura e história, que enfrenta problemas como todos os outros países do mundo, mas tem seus pontos positivos também.

O livro faz parte da Coleção Povos e Civilizações da editora, ideia que eu achei magnífica e quero ler todos os livros: O Mundo Muçulmano, Os Espanhóis, Os Franceses, Os Russos, Os Argentinos, Os Americanos, Os Japoneses, Os Italianos, Os Chineses, Os Indianos, Os Portugueses e Os Mexicanos.

Melhor preço: Livraria da Folha

Eu sou Malala

Livro: Eu sou Malala - A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo talibã

Autora: Malala Yousafzai com Christina Lamb







O post de hoje é dedicado a minha primeira (auto)biografia. Sempre tive um certo preconceito contra esse gênero literário, por achar ser mais um propaganda que um livro. Mas me rendi a Malala no começo de 2014 e não me arrependo, foi o inicio de um caso de amor com as biografias!

O livro escrito em parceria com a jornalista correspondente no Paquistão, Christina Lamb, é um retrato fiel do que enfrentam os muçulmanos nas regiões dominadas pelo Talibã.

Não me lembro ao certo quando me apaixonei pela cultura islâmica, mas eu ainda estava na escola. E desde então, sempre procurei ler, e saber mais sobre o que acontecia, principalmente no Afeganistão e no Paquistão, e nenhum livro me proporcionou tanto conhecimento como esse.

O livro é dividido em 5 partes: Antes do Talibã, O vale da morte, Três meninas três balas, Entre a vida e a morte e Uma segunda vida. 

Malala nos apresenta a um Paquistão antes de ser dominado pelo Talibã, passando pelo processo no qual o Talibã começa a assumir o controle das províncias paquistanesas, o momento do acidente, como ela foi tratada e as consequências disso em sua vida. O livro é muito bem escrito e faz você querer saber mais e mais sobre tudo o que foi vivido pelos paquistaneses. É um problema atual o qual vemos noticias tristes todos os dias na TV sobre a região. Mas a coragem da menina que enfrentou o Talibã, tendo a coragem de expor os problemas a nível internacional escrevendo para a BBC com certeza nos faz refletir sobre como enfrentamos os nossos problemas. A leitura é rápida e fácil, e espero que todo mundo se encante pela Malala assim como eu!

Nos links, o melhor preço para se adquirir o livro e o documentário produzido pelo New York Times com a história de Malala e suas colegas de classe!

Onde encontrar pelo melhor preço, hojeAmericanas.com.br

Onde mais posso encontrar a história: Class Dismissed - New York Times
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